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Assessoria de Comunicação

Estudantes entrevistam o escritor Júlio Emílio Braz

   19-06-2009
Júlio Emílio Braz responde perguntas
Confira mais fotos da palestra com o escritor

O premiado escritor de livros infanto-juvenis, Júlio Emílio Braz, esteve no Instituto Nossa Senhora da Glória – INSG/Castelo no dia 17 de junho para conversar com os alunos do 7º ano do Ensino Fundamental. Os jovens leram o livro “Crianças na escuridão”, sobre meninas de rua, e receberam o autor para um bate-papo sobre a sua obra e profissão. Na ocasião, os estudantes apresentaram trabalhos, encenações e coreografias a partir do livro. No final do evento, as crianças entrevistaram Júlio Emílio e esmiuçaram a carreira do aclamado escritor, que já escreveu 156 livros e recebeu prêmios como o Austrian Children Book‘s Awards e o Blue Cobra Award do Swiss Institute for Children’s Books. Confira abaixo a entrevista.

Alunos INSG: Como o senhor se tornou escritor?
J. E. Braz: Comecei a escrever na década de 80, quando fiquei sete meses desempregado. Sou técnico em contabilidade, mas o único trabalho que arrumei naquela época foi fazer roteiro de histórias de terror para crianças. Em 86 escrevi meu primeiro livro, que foi publicado em 88, e recebi o prêmio Jabuti por ele em 89. Desde então, não parei mais de escrever.

Alunos INSG: Como é ser escritor no Brasil?
J. E. Braz: Essa história de que brasileiro não gosta de ler, não é verdade. Estou vendendo livros há três décadas. Criança gosta de ler, inclusive livro grosso. O Harry Potter está aí para provar isso. A edição mais fina tem mais de 100 páginas. Então, a situação não é tão ruim como se pensa.

Júlio Emílio Braz sendo entrevistado

Alunos INSG: Escritor é profissão?
J. E. Braz: Até cinco anos atrás não. Eu ia fazer meu imposto de renda e era classificado como “outros”, pois não havia a opção de escritor dentre as atividades profissionais. Em 97 ganhei um prêmio em dinheiro na Áustria e tive que classificá-lo como doação, porque a profissão de escritor não era reconhecida no Brasil.

Alunos INSG: Como surgiu a idéia do livro?
J. E. Braz: A partir dos livros que eu li, como Capitães de Areia, de Jorge Amado, Os sertões, de Euclides da Cunha, e muitos outros. Todo mundo escrevia sobre meninos de rua, mas ninguém falava das meninas. Parecia até que elas não existiam. Então, resolvi mudar o foco e contar a história a partir da perspectiva das garotas que vivem nas ruas. O livro virou um sucesso. Já ganhou dois prêmios na Europa e foi traduzido para quatro línguas. O próximo lançamento será na Noruega.

Alunos INSG: Você se inspirou na história do nosso país?
J. E. Braz: Infelizmente, sim. No Rio de Janeiro, ao contrário da Alemanha, há muitas crianças de rua. E se há crianças na rua é porque alguém não parou para pensar. Antes de terem filhos, pensem no livro que vocês leram. Se não tiverem condições ou vocação para ser pais, não sejam. Viemos nesse mundo para tentar ser feliz e prepará-lo para as próximas gerações. Colocar alguém no mundo, já sabendo que este ser humano será infeliz, é uma crueldade.

Apresentação baseada no livro

Alunos INSG: Porque escolheu esse tema?
J. E. Braz: Eu gosto de mostrar as coisas feias. Alguém tem que falar sobre elas, pois é assim que as coisas mudam. As crianças não podem crescer alheias à realidade. Há pais que não gostam que tratem de temas como sexualidade e miséria com os seus filhos, mas discutir esses temas é importante. Eu também gostaria de proteger meu filho das coisas ruins, mas preciso prepará-lo para a vida.

Alunos INSG: Qual o seu objetivo ao escrever esse livro?
J. E. Braz: Mostrar essa realidade e a falsa solidariedade de pessoas que não se mobilizam para mudar uma situação historicamente arraigada. Tem gente que presencia alguém sendo assaltado e finge que não vê. Não querem se incomodar, sair do seu próprio mundo. Meu objetivo é fazer com que essas pessoas vejam a realidade que não querem ver. Porque quando alguém lê um livro, acontece o óbvio: ela pensa.

Alunos INSG: Você vivenciou essa história? Os personagens são reais?
J. E. Braz: A gente cria a partir do que ouve, do que vê e do que vive. A história é fictícia, mas alguns personagens são reais, como a Maria Preta, que morava no meu bairro, na Favela da Maré, no Rio de Janeiro. Lá, conheci histórias muito mais assustadoras do que as relatadas no livro.

Educadoras do Castelo e o escritor

Alunos INSG: Como você se sente em saber que mudou a maneira de pensar dos outros?
J. E. Braz: No início, não temos muita consciência disso. Mas fico satisfeito em saber que inspirei outras pessoas. Tem gente que pensa que, para ser escritor, precisa ser rico. Só precisa de um cérebro funcionando e muita leitura.

Alunos INSG: Porque você não fez um final feliz?
J. E. Braz: Seria lindo, mas não seria real. É péssimo ver uma criança de rua e não poder fazer nada. Como são muitas, não podemos levá-las para a nossa casa. O que eu posso fazer é tentar impedir que o problema se repita, alertando e esclarecendo outros indivíduos através do meu livro.
Os jovens não deveriam pensar em casar antes dos 20 anos. Na favela, há crianças de 13 e 14 anos com dois filhos. Ou você é adolescente ou você é mãe, não dá pra ser as duas coisas ao mesmo tempo. E geralmente o número de filhos é inversamente proporcional ao grau de instrução – ou seja, quanto menos estudo, mais filhos.

Alunos INSG: Que mensagem você gostaria de deixar para nós, estudantes?
J. E. Braz: O brasileiro está se descobrindo como povo. Ele ainda acha que cobrar é ser chato. Na verdade, é ser cidadão. A minha mensagem pra vocês é leiam muito e estudem bastante, pois é a sua instrução que vai garantir que outras pessoas não te farão de bobo. Quem lê, pensa. Então, leiam tudo o que encontrar pela frente: contrato das Casas Bahia, bula de remédio, livros, revistas, jornais e etc. Perguntem, questionem, não tenham medo de pensar.




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